Querido diário ,
ela entrou apressada pelo quarto .
- Dan , acorda ! - disse minha mãe .
Ela é uma mulher relativamente gorda . Não gorda em excesso . Tem uma barriga sobressalente e braços , hum ... Cheios . Os ombros largos e a bolsa pesada que ela costuma carregar pela rua mantém qualquer bandido afastado logo que a ve .
- Hoje não é dia de educaçao Física . - respondi em um murmúrio quase inaudível .
- E precisa ser ? - retrucou em ironia - Bora . Voce levou quatro meses pra passar por toda essa bateria de exames e hoje a médica já vai dar o veredicto final - ponha bastante enfase em ''veredicto final'' . Como se voce estivesse em um jurado e ele parasse alguns segundos antes de responder e viesse como trilha sonora aquela musica manjada de suspense .
- Voce fala assim parece até que vou morrer .
- Não fala besteira , Daniel . Anda levanta . A fila do posto médico ja deve estar cheia !
- Mãe , são ... - abri a tampa do laptop para ver a hora . - 6 da manhã . Os galos ainda nem cantaram .
Para meu azar , os galos decidiram cantar neste exato momento .
- É ... Parece que os parentes se entendem . - disse ela dando a entender a minha fama de homem galinha como foi meu pai quando jovem - Anda , levanta !
Com relutancia , me levantei da cama . Eu não tinha dormido bem . Na noite anterior tinha ficado até 3 da manhã dando comida para a minha cadela policial do Criminal Case . O que somatiza mais alguns milímetros de olheiras e uns chiados da minha namorada por eu não estar bonito o suficiente para ser exibido as amigas dela . Que não são exatamente amigas . Das quatro amigas que ela tem , eu já tranzei com duas e fiquei com uma . A outra se salva . Ou não . Ela é feia .
Meio tonto ainda pela noite mal dormida , cambaleei até a porta , provavelmente eu andei feito um bebado . Mas é claro que eu não tinha como reparar isso . Meus estados de semiconsciencia me fazem concordar com qualquer coisa , fazer qualquer coisa e eu me esqueço quando acordo . Meus estados de total consciencia fazem com que a minha voz seja capaz de controlar a força de vontade das pessoas , as vezes tenho a impressão de controlar os ventos , raios , chuvas , etc . Mas são só impressões .
No caminho da minha cama para a porta de madeira caindo aos pedaços da casa de madeira caindo aos pedaços , passando pelo fogão que fica encostado ao parede do lado contrário da passagem do meu quarto fazendo o trajeto cama-porta , e do lado de frente de quem faz o trajeto porta-cama , passando pelo cesto de roupa suja , passando pelo carpete sujo , passando pela penteadeira da minha mae , passando pela janela , passando pelo ventilador que acabei de derrubar , passando pelo meu corpo jogado no chão no chão em uma poça de sangue com uma caneta na mão e o dedo apontando para baixo da cama de solteiro que fica encostada na parede da porta de madeira caindo aos pedaços da casa de madeira caindo aos pedaços , passando pelo ... Perai ? Meu corpo jogado no chão em uma poça de sangue com uma caneta na mão e o dedo apontando para baixo da cama de solteiro que fica encostada na parede da porta de madeira caindo aos pedaços da casa de madeira caindo aos pedaços ?!?! Aquilo foi novo pra mim , olhei pra ver e ele ja nao estava mais la .
Acho que eu ja consumi paragrafos demais desde a hora que eu acordei ...
Sentei-me a mesa , minha avó nao deixou eu tomar café quente antes de tomar banho porque eu poderia morrer se fizesse isso ou eu seria preso (ela acha que eu tenho cinco anos e diz ''nao sai com os teus amigos se nao a policia te prende'' , dentre outros) , tomei banho , preparei o café da manhã , o café forte e morno , meu tio encheu a paciencia dizendo que eu tava demorando demais aproveitando-se de que era ele que ia me levar pro posto médico na moto dele .
- Nessa velocidade ... - indagou ele mastigando um grande pedaço de baguete . Darinho era um cara de trinta e poucos anos , perto dos 40 . Tinha uma barriga sobressalente e uma barba rala . O rosto razoavelmente redondo , o cabelo baixo quase raspando formando um ''M'' com curvas naquela testa morena dele .
Fiquei calado ao infeliz comentario . Aprendi da pior forma que cala nem sempre consente , as vezes é só falta de paciencia pra responder gente idiota .
Enfim , foi um saco ter que acordar aquela hora , tomar banho naquela temperatura , pegar um vento matinal depois de tomar aquele banho , chegar no posto médico e tomar aquele chá de cadeira .
Mas eu precisava daquele diagnóstico .
Desde criança eu tinha umas glandulas na cabeça . Na verdade , só uma .
Mas desde uns 2 anos atrás apareceram tres. Que vivem crescendo e diminuindo .
Ao todo sao tres .
Uma na nuca , uma atrás da orelha esquerda , e uma no ponto onde o cabelo começa a crescer no lado direito do pescoço e , ha cerca de 2 meses quando eu ainda estava estudando uma bolha de sangue se formou em minha garganta . Eu ainda lembro do dia .
Era umas dez horas da manhã , o sol estava quente entrando pela janela leste da casa . Minha casa era diferente das outras . Meus amigos dizem que o meu quarto ja é uma casa separado de uma casa . A verdade é que eu sou da classe média baixa , Diário . Moro em um beco . Mas não é um beco Americano . Os becos dos Estados Unidos são a equivalencia das ruas da minha cidade . Uma cidadezinha de 300.000 habitantes , no interior do Pará , que muitos consideram o interior do Brasil . O beco da minha casa (beco esste que alguns preferem chamar de rua) são um pedaço do mundo esquecido pelo asfalto . Acho até que aqueles que estavam escolhendo o pontos da cidade pra colocar asfalto eram arqueologistas . Passaram pela ''rua'' e decidiram ''AQUI É TÃO FEIO E LAMACENTO QUE DEVE HAVER ALGUM TESOURO EM ALGUM LUGAR'' , e deu-se que os arqueologistas provavelmente morreram e o meu pequeno mundo particular que eu apelidei de Sítio Arqueológico continuou a ser para os meus olhos , um verdadeiro Sítio Arqueológico . Bem remexido e bagunçado . Os carros e motos tem medo de passar por ali . Poucos se arriscam . Pouquíssimos se arriscam . Pouquississímos se arriscam . Quase ninguém se arrisca . Apenas 1 pessoa se arrisca . Meu vizinho da frente .
Só o que salva a rua são as calçadas . Uma parte da rua tem a frente voltada pro leste e a outra pro oeste . Na frente que é voltada para o leste existem apenas casas , somente casas . Simples , da classe média baixa . Na frente que é voltada para o oeste tem uma Clínica , que fica logo no começo da rua de asfalto . Ou seja , a frente da clínica é voltada para o asfalto (para o Norte , se preferir) , e a lateral esquerda é voltada para o beco (ou o Oeste , se preferir) . Logo depois da Clínica vem a minha casa , que é uma casa separada das demais por vários motivos (não acredito que estou explicando isso para um simples e idiota pedaço de papel) .
Primeiro motivo - Ninguem da minha casa interage com ninguem daquela rua . A não ser a minha avó , que hora ou outra fala com os primos dela que moram na ala voltada pro Leste e com a colega de igreja que tambem mora na ala Leste , um pouco mais rua acima . Não tive infancia . Fiquei trancafiado em casa minha infancia toda sem brincar com ninguem daquela rua . E olha que tem muita gente na minha faixa etária lá , pessoas que eu poderia ter crescido junto (mas , de certa forma eu agradeço por nao ter crescido junto com eles porque a unica menina que tinha virou funkeira e o resto virou drogado contrabandista , saiu da escola e virou alcoólatra) .
Segundo motivo - A ala Leste é feita somente de casas da classe média baixa . A ala Oeste também , com exceçao da minha . A minha casa eu considero da classe média miserável .
Terceiro motivo - O monte de terra remexido na frente da minha casa vira um pequeno rio em época de cheia (ja que aqui no Pará só tem inverno - onde chove pra caramba - e o verão - que faz calor pra caramba - , sendo que cada um se reveza de seis em seis meses e o ano começa com chuva) , e essa chuva remexe a terra mais ainda a cada ano . E leva um pouquinho de terra a cada ano . O que ja faz a minha casa parecer que esta em um monte de terra amontoada de forma a formar uma pilha que deixa minha casa no alto dessa pilha de terra amontoada , e voce nao consegue enxergar a base da pilha de terra amontoada . A visão exterior a faz parecer uma prisão isolada . A visão interior ? Ídem .
A Casa da Frente era feita totalmente de madeira com um telhado antiquado cinza desbotado . Pintada de verde por fora , com um muro nao pintado e um pequeno portao de madeira , que estava ali mais por tradiçao de Cada-Casa-Deve-Ter-Seu-Portao do que para nos proteger de um real perigo . A Casa de Trás era feita de madeira e alvenaria . Do meio pra baixo , alvenaria . E o resto de madeira e o mesmo telhado antiquado cinza desbotado . Algumas plantas se espalhavam pelo quintal . A madeira da Casa de Trás era de uma cor que um dia fora amarela e agora está saindo do beje . Eu fico brincando de adivinhar qual vai ser a ultima cor até ela chegar no branco .
A Casa de Trás era larga e curta , a Casa da Frente era fina e longa . De forma que , do Sítio Arqueológico , dava de ver metade da Casa de Trás .
A Casa da Frente era ocupada por mim e pela minha mãe e nossas coisas . A Casa de Trás era ocupada pelo meu tio , avo e avó . Cozinha , sala de estar , de jantar e quartos privativos . Tudo em um comodo . Sendo que o quarto privativo do meu tio era separado por uma simples cortina que nao dava nem de cobrir a silhueta da posiçao do Frango Assado ou do Cavalo de Barriga Pra Cima , ou ao menos abafar o som caso ele quisesse levar a namorada dele pra transar lá .
No dia da Bolha de Sangue , eu acordei era umas dez horas . Levantei da minha cama e fui pra Casa de Trás . O sol tava entrando pelas aberturas na parede de madeira e não tinha ninguém em casa .
Foi aí que veio o gosto . Era de sangue . Eu sabia que era de sangue . Mas , como nós nunca suspeitamos de nada até que aconteça pela primeira vez , eu ainda fiz questão de tomar uma xícara de café e levar aquele sangue que fluía em ritmo constante goela abaixo , e depois o pão também transportou goela abaixo aquele rio de sangue . E , por fim , um copo d'água . Eu uso aparelho ortodontico e , quando os dentes mudam de lugar muito rapido , fica um espaço aberto na parte da gengiva do dente que se moveu e ali daquele espaço começa a sair um pouquinho de sangue . E foi por isso que eu não suspeitei de nada .
Mas aí , por volta das onze e meia , eu abri a boca para ver o tanto que os dentes haviam se movido da noite anterior pro dia seguinte e lá estava ela . Uma bolha vermelho-escuro de sangue pulsante , pouco maior que a amídala , o sangue escorria e encontrava-se com o último dente do lado esquerdo , e ia sabe Deus pra onde .
Tudo aconteceu muito rápido , não sei nem como eu consigo lembrar a ponto de descrever . Eu olhei , aquilo . Tinha acabado de sair do banho . E mesmo com aquela toalha fúcsia ridícula envolvendo a minha cintura magra eu corri para a Casa da Frente , peguei o antisséptico bucal e corri para a pia da Casa de Trás . Empurrando , chutando , desviando tudo e desviando de tudo o que eu via pela frente .
Enxaguei milhares de vezes , olhei . Ela continuava lá .
Gargarejei com água , olhei . Ela continuava lá .
Bochechei com antisséptico , água e vinagre . Olhei . Ela continuava lá .
Gargarejei com água e sal . Olhei . Sumiu .
Mas pra onde ? E foi aí que eu me toquei que ainda havia uma fenda nela que continuava a escorrer sangue . Ou seja , eu engoli a bolha e ficou a base . O desespero tomou conta de mim e eu fui me sentar em uma cadeira de balanço . Só entao eu percebi o quanto eu estava perto de perder a força das minhas pernas e cair no chão . Só entao eu percebi o como meu coração batia acelerado . Só então eu senti a ausencia dos meus movimentos braçais . Pouco a pouco , o sangue voltou a fluir normalmente pelo meu corpo e , mais pouco a pouco ainda , eu o parei de sentir na minha boca .
Os dias se seguiram sem eu ir na escola , indo ao consultório da doutora Waldaci , ela me passando uma bateria de exames como Toxoplasmose , uma sigla que começa com S e termina com L , Infectologia e mais uns quatro ou mais . Voltei a escola , alguns deram minha falta , outros não . A minha supostamente namorada havia justificado minhas faltas dando detalhes até demais . Alguns até perguntaram sobre uma possível bolha de sangue e eu tive que desmentir , é claro . Não queria ser uma aberração .
E lá estava eu , no mesmo consultório , quatro meses depois , depois de todos os exames , sob o olhar crítico da doutora logo após eu entrar na sala depois da espera de 11 pessoas na minha frente .
Ela abriu os exames , suportando pacientemente a tagarelice da minha avó e logo dizendo
- Não tem vermes ... - pausa para ler o outro exame - Não tem sifílis nem nenhuma outra DST - confesso que fiquei muito tranquilizado com isso . E então ela ficou lendo e relendo o último exame . Apesar de eu achar que ela estava apenas fingindo ler para arranjar uma forma de explicar para a minha avó a gravidade da situação sem que a minha avó ficasse assustada e de forma velada para que eu também não pudesse entender . Em determinado momento ela arregalou os olhos e voltou a sua expressão normal em uma fração de segundos . Dessa vez era ela quem estava sobre o meu olhar crítico . Olhar que eu havia desenvolvido com Halt nos meus ultimos 9 exemplares de RANGERS Ordem dos Arqueiros - Tem algum erro no de Infecto . - disse ela por fim , daquele modo carinhoso que os médicos abreviam nomes compridos . - Ele precisa refazer . No Hospital Central . E se possível também , uma Biópsia . - disse ela fazendo minha avó arregalar os olhos sem se dar conta de que ja estava ha muito com os olhos arregalados .
Claro que eu não sabia o que era uma Biópsia . Parece que a doutora sabia disso . Então ela olhou para a minha avó , mordeu os labios inferiores , tirou os óculos , colocou-os sobre a mesa fechou os olhos , e balançou a cabeça em positivo como quem diz com solidariedade ''Poisé , me desculpe''
Então eu disse
- A senhora poderia me encaminhar para uma nutricionista ? - Ela o fez e me indicou um polivitamínico mineral .
Depois eu fui para a casa , fiquei tocando violão , segui o dia normalmente e fiquei pensando em como eu e minha namorada concordamos em terminar sem nem ao menos nos falar .
Eu pesquisei na internet para o que servia uma biópsia . E logo apareceu uma palavra na tela do computador que mais pareceu saltar dos pixels e ficar ecoando em minha mente pelo resto do dia .
''Cancer , cancer , cancer ...''
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